Sonho de enófilo
Graças a amigos que o mundo do vinho é capaz de proporcionar, participei, ao longo dos anos, de fantásticas degustações, em que espécies muito raras e caras foram apresentadas. Porém, sempre fica faltando uma, como é o caso, por exemplo, de uma vertical (mesmo vinho em safras diferentes) de um grande vin de garage (produção artesanal, limitada). E, recentemente, isso foi possível, imagine só, com o pioneiro deles, que é o Château Valandraud. Lembro que uma dessas degustações memoráveis que participei, o Valandraud 2001 bateu o mítico e caríssimo Le Pin, de mesma safra, segundo a opinião dos presentes na ocasião.
Esta degustação dos sonhos (onde o preço não conta, como sempre gosto de afirmar) aconteceu na Casa do Porto, em São Paulo, e à medida que os vinhos eram degustados, expressões cada vez maiores de júbilo se faziam presentes. Arthur Piccolomini, editor da revista brasileira Wine Style e consultor de vinhos, um dos participantes da vertical, disse brincando que esta degustação era uma daquelas (poucas, infelizmente) que devem ser colocadas no curriculum vitae.
Segundo Jean-Luc, é a primeira que fazem assim no Brasil, porém tendo sido feita em outras grandes cidades do mundo. Interessante dizer que a última foi realizada em Nova York para o grupo de Robert Parker, o mais famoso crítico de vinhos do mundo.
Foram apresentadas 18 safras pelo seu produtor, Jean-Luc Thunevin, contando ainda com a participação do sueco Andrèas Larsson, sommelier campeão mundial. Até hoje, foram feitas 19 safras, e só não estava presente a primeira, o Valandraud 1991 (Jean-Luc tem apenas duas garrafas em sua adega pessoal). Todas as demais se fizeram presentes, inclusive a grande promessa (e cara), que é a de 2009. Próximo da mescla final, Jean-Luc, trouxe uma amostra de barrica, fruto de assemblage feita para este inédito evento.
Aquela noite, sem dúvida, traduziu em um daqueles momentos mágicos que só o vinho é capaz de nos proporcionar. Indescritível por palavras, devendo ser curtido no coração e guardado em um canto especial do cérebro.
A fim de colocar de prontidão nossos órgãos dos sentidos, já que haveria muito “trabalho” pela frente, começamos pelo Chateau Valandraud Blanc # 1 2007. Feito com as uvas sauvignon blanc e semillon, meio a meio, de vinhas de 7 anos em solo argilo-calcáreo, este já entrou arrasando, com sua untuosidade e, ao mesmo tempo com um frescor incrível. Toque herbáceo discreto, floral, fruta quase madura.
Belíssimo vinho produzido pela esposa de Jean-Luc, Murielle Andraud. É a segunda vez que o degusto e não há como deixar de se apaixonar por ele, e como disse em outra oportunidade, em mesmo nível dos grandes brancos de Graves.
Larsson achou que deveríamos iniciar a vertical pelos mais velhos (safras mais antigas) e terminar com os mais novos, mais poderosos. A regra (que em vinhos, muitas vezes existem para serem quebradas) de deixar safras mais antigas para o final, não é tão aconselhável mais, em virtude dos vinhos modernos estarem com algo mais de poder, potência, podendo estafar e esconder as sutilezas que só o tempo em garrafa permite.
Esta degustação é a prova de que vinhos de garagem, ditos modernos demais (por não respeitar os métodos clássicos de trabalho em vitivinificação), podem envelhecer maravilhosamente bem, mesmo que se apresentem muito concentrados e opulentos na juventude. No caso do Valandraud, o que percebemos é que quase passados 20 anos (safras 1992, 1993 e 1994), ele se mostram tão clássicos quanto os outros famosos Bordeaux. Com certeza, quem criticou na época estes vinhos (vin de garage) por serem muito concentrados têm que dar a mão à palmatória (pois os garagistas estavam certos).
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*Por Gérson Lopes.









Gerson
Mais uma vez obrigado pela magnifico texto sobre os vinhos do Jean Luc
Pericles